Após agradar público estrangeiro, longa 'Morto Não Fala' chega ao Brasil

10.10.2019 | 10h45
Por Anna Rios
 'Morto Não Fala'

BLOG

Universo Compartilhado

Filme de terror nacional foi citado por revista americana como um dos melhores de 2019, junto com 'Nós', de Jordan Peele

Por GaúchaZH

Após estrear por streaming nos Estados Unidos, Austrália, Alemanha e mais três países e nos cinemas na Rússia e no México, chega ao Brasil nesta quinta (10) "Morto Não Fala", filme de terror com fantasmas, que nasceu como um seriado da Globo mas acabou pulando para a tela grande.

Produzido sem dinheiro público pela Globo Filmes, Casa de Cinema de Porto Alegre e Canal Brasil, "Morto Não Fala" foi lançado em julho do ano passado, no Fantasia International Film Festival, em Montreal. De lá para cá, foi exibido em cerca de 40 festivais no mundo.

No agregador de críticas norte-americanas Rotten Tomatoes, "The Nighshifter" (nome que recebeu por lá) tem aprovação de 92%. E foi lembrado pela revista "New York" como um dos melhores filmes de terror de 2019, ao lado de "Nós", de Jordan Peele.

É o primeiro longa-metragem de Dennison Ramalho, que já dirigiu oito curtas na longa carreira, sempre de terror, e foi corroteirista e assistente de direção de José Mojica Marins na última aventura de Zé do Caixão, em "Encarnação do Demônio" (2008).

A história segue a vida de um médico legista, Stênio (Daniel de Oliveira, de "Cazuza"), que trabalha no período noturno do IML paulistano e tem o dom de conversar com os recém-mortos. Mora numa periferia violenta, sustenta dois filhos e é odiado pela mulher (Fabiula Nascimento, que está na novela "Bom Sucesso"). Essa vida desgraçada vai ficar muito pior quando Stênio descobrir que a mulher tem um caso com o pai (Marco Ricca, de "O Invasor") de uma conhecida (Bianca Comparato, de "3%").

Os efeitos especiais bolados por Ramalho ganharam alguns dos cinco prêmios já amealhados pelo filme. Para caracterizar a total imobilidade dos mortos, que, apesar do título, falam sim, o cineasta encomendou esculturas idênticas às dos atores. Seus rostos se movendo foram mais tarde inseridos digitalmente sobre os corpos sem vida.

"É um filme de terror que não tem a missão fazer comentário social. Mas fez, pois nas mesas de necrotério há jovens negros demais, há mortos pela polícia demais", afirma Ramalho, lembrando que o conto original já carregava um pouco desse ímpeto. A história foi escrita há 15 anos pelo jornalista policial Marco de Castro para seu blog Casa do Horror.

Daniel de Oliveira embarcou no projeto e esteve diversas vezes no IML de Porto Alegre, onde o longa foi filmado no final de 2016. Conversou com legistas, assistiu autópsias e aprendeu a costurar um cadáver, conta o diretor.

"Quando estivemos na câmara fria do necrotério eram dezenas de cadáveres de verdade, em macas, em prateleiras, no chão. Eu e o Daniel só não conseguimos ir até o fundo do local, onde ficam as crianças mortas", lembra Ramalho.

O cineasta começou a escrever a série baseada no conto após encomenda de Guel Arraes, para a Globo.

Ramalho já trabalhava na emissora desde 2014, quando voltou de um mestrado de cinema da Columbia University. Escreveu roteiros para os programas "Carcereiros" (também dirigiu três episódios) e "Supermax". Ele e Claudia Jouvin escreveram onze episódios e também o roteiro do longa.

"Morto Não Fala" ainda pode se tornar uma série da emissora, e a recepção no país pode ajudar para isso. Mas o diretor tenta não pensar muito nisso agora. "É tão traumático ver o tamanho da frustração de meus colegas quando lançam um filme e ninguém vai ver... Já estou bem feliz com o streaming e a recepção em outros países." Logo saberemos se, aqui, esses mortos falam.

Matérias Relacionadas