Artistas e intelectuais assinam carta a favor da liberdade de expressão

10.07.2020 | 14h28
Por Folhapress
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Mundo Itapema

Entre as personalidades que assinaram a carta estão o linguista Noam Chomsky, os escritores J.K. Rowling, Salman Rushdie, Andrew Solomon e Margaret Atwood, a ativista feminista Gloria Steinem e o cientista político Yascha Mounk

Mais de 150 intelectuais, escritores e artistas de diversos países assinaram uma carta aberta lamentando um "clima de intolerância" vindo de "todos os lados", não só da direita radical, e uma censura que promove a humilhação pública, em alusão à "cultura do cancelamento" - boicote a pessoas e marcas com visões e comportamentos considerados inadequados. Entre os 153 signatários do manifesto, divulgado na terça (7), estão o linguista Noam Chomsky, os escritores J.K. Rowling, Salman Rushdie, Andrew Solomon e Margaret Atwood, a ativista feminista Gloria Steinem, o trompetista Wynton Marsalis e o cientista político Yascha Mounk.

O texto, intitulado "Uma Carta sobre Justiça e Debate Aberto", foi publicado pela Harper's Magazine e vai ser replicado em outros grandes veículos internacionais. O manifesto começa apoiando os protestos contra a brutalidade policial e as desigualdades raciais que explodiram nos EUA e no mundo após o assassinato de George Floyd. A carta continua, porém, dizendo que "esse necessário acerto de contas" intensificou atitudes morais e compromissos políticos que tendem a "enfraquecer as normas do debate aberto e da tolerância às diferenças em favor da conformidade ideológica".

"Aplaudimos o primeiro acontecimento, mas também levantamos nossa voz contra o segundo", diz o texto, que cita "uma intolerância a pontos de vista opostos, uma moda de promover a vergonha e o ostracismo públicos e a tendência de reduzir questões políticas complexas a certezas morais cegas".

"A forma de combater ideias ruins é pela exposição, debate e persuasão, não por tentar silenciá-las", diz outro trecho. "Como escritores, precisamos de uma cultura que nos deixe espaço para experimentação, riscos e até erros."

O texto também critica Donald Trump, por representar "uma ameaça real à democracia" e ajudar a "intensificar as forças do iliberalismo pelo mundo". "Mas a resistência não deve se fechar em seu próprio dogma e coerção - algo que os demagogos de direita já estão explorando. A inclusão democrática que queremos só pode ser alcançada se nos pronunciarmos contra o clima de intolerância que se instalou nos dois lados." A publicação traz à tona um debate que vem ocorrendo na imprensa e nos meios acadêmico e artístico sobre até que ponto algumas demandas por diversidade e inclusão, e a dinâmica das mídias sociais que as impulsionam, vão longe demais.

A reação à carta nas redes sociais foi rápida. Muitos criticaram os signatários por falta de diversidade e privilégio. Um usuário escreveu que eles têm "maiores plataformas e mais recursos que a maioria dos outros seres humanos" e não correm o risco de serem silenciados. Outro, que eles temem a perda de relevância. Na lista dos que assinaram, estão pessoas de espectros ideológicos diferentes, do esquerdista Noam Chomsky ao neoconservador Francis Fukuyama. Há ainda alguns intelectuais negros, como o historiador Nell Irvin Painter, os poetas Reginald Dwayne Betts e Gregory Pardlo e o linguista John McWhorter.

Ao New York Times, Betts defende a diversidade do grupo. "Estou ao lado de pessoas que normalmente não estariam na mesma sala que eu. Mas há de convir que o que está na carta merece alguma reflexão." Ele disse que, como alguém que passou mais de oito anos na prisão por um crime cometido quando era adolescente, considera que o momento atual "inclemente" e "antiético para sua noção de como precisamos lidar com os problemas da sociedade".

Houve alguns nomes que aparecem na lista, mas se distanciaram da iniciativa após sua publicação. "Não sabia quem mais tinha assinado essa carta. Achei que estava apoiando uma mensagem bem fundamentada, apesar de vaga, contra a humilhação na internet", escreveu no Twitter a escritora Jennifer Finney Boylan. A historiadora Kerri K. Greenidge tuitou que não endossa a carta e que pediu uma retratação à revista. Uma porta-voz da Harper's afirmou ao NYT que a assinatura de Greenidge havia sido checada, mas que a publicação "respeitosamente removeria seu nome".

Outros críticos da publicação disseram que foram procurados para assiná-la, mas não quiseram, como Richard Kim, diretor do HuffPost's. Thomas Chatterton Williams, que começou a iniciativa e é colunista da Harper's e colaborador da New York Times Magazine, disse ao jornal The Washington Post que cerca de 20 pessoas contribuíram para escrever a carta antes de ela ser enviada para coletar as assinaturas. Ao NYT, ele afirmou que não houve um incidente em particular que motivou a carta.

No entanto, citou episódios recentes envolvendo o direito à liberdade de expressão, como a renúncia de mais da metade do conselho do Círculo Nacional de Críticos de Livros dos EUA por sua declaração de apoio ao movimento Black Lives Matter. Tais incidentes, disse Williams, alimentaram e ecoaram o que ele chamou de um "iliberalismo" muito maior e mais perigoso do que o professado pelo presidente dos EUA. "Trump é o Cancelador-Chefe", disse ele. "Mas a correção dos abusos de Trump não pode se tornar uma hipercorreção que sufoca os princípios em que acreditamos."

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