Beck se encontra no minimalismo de Pharrell em seu 14º disco

29.11.2019 | 13h00 - Atualizada em: 29.11.2019 | 13h55
Anna Rios
Por Anna Rios
Beck

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Ainda que a produção indique o caminho, o álbum está cheio de momentos pouco inspirados

Beck não está no auge de sua carreira. Ainda que tenha levado o principal prêmio no Grammy, de disco do ano, há apenas quatro anos, aquela não foi uma premiação usual. Em 2015, a Academia de Gravação acabou preterindo artistas mais populares - Beyoncé era uma das concorrentes - para reconhecer um álbum com pouco apelo comercial.

O disco premiado, "Morning Phase", era um resgate do folk reflexivo de "Sea Change", de 2002, um dos melhores trabalhos de Beck. Em 2017, contudo, ele mudou os rumos. Em "Colors", Beck passou a perseguir um pop açucarado, em uma busca por diversão tão imediata quanto o título do álbum sugeria.

No novo disco, ele também adianta as intenções no título. "Hyperspace" é grandioso em suas ambiências, continuando o flerte com o pop eletrônico, mas, desta vez, sem ignorar a introspecção conhecida dos melhores trabalhos de Beck.

As principais mudanças na abordagem vieram com um novo produtor. Em "Colors", Beck colaborou com Greg Kurstin, que traz obras de Adele e Paul McCartney no currículo. Em "Hypersapce", seu principal parceiro é Pharrell Williams. Em uma união que provavelmente pararia o mundo do pop alternativo nos anos 2000 - quando eles viviam os melhores momentos de suas carreiras -, Beck parece ter encontrado a forma para ainda soar original em seu 14º disco. Se em "Colors" ele experimentava com o trap e a EDM onipresentes nas paradas de sucesso, agora, as músicas combinam mais organicamente elementos do hip-hop, do folk e até do space rock.

Mas a contribuição mais importante de Pharrell - que assina sete das 11 faixas - foi enxugando os arranjos. Em músicas como "Uneventful Days", ele transforma as composições ortodoxas de Beck em pop de sintetizadores viajados, graves secos e um clima atmosférico - sem que deixem de soar como composições de Beck.

A lembrança dos primeiros álbuns do Coldplay em "Stratosphere" não é coincidência. O próprio vocalista da banda, Chris Martin, fornece backing vocals nesta balada que resgata a letargia de "Morning Phase". Esta dinâmica segue em "Dark Places", na qual Beck imerge na desesperança de uma madrugada solitária. Mas essas músicas não refletem apenas o momento atual, e sim grande parte da carreira dele. Mesmo em seus discos mais obscuros, Beck nunca escondeu o apreço por fazer música que soe palatável, ainda que apenas como embalagem para reflexões de ordem pessoal. Em "Hyperspace", há uma confluência muito mais coerente dessas ideias.

Mas, ainda que a produção de Pharrell indique o caminho, o álbum está cheio de momentos pouco inspirados. Com uma slide guitar, "Saw Lightning", por exemplo, parece uma tentativa vazia de recriar hits como "Loser". Em termos de letra, Beck também não está na ponta dos cacos. Em geral, o disco trata o fim de um relacionamento, mas não parece contemplar a confusão de sentimentos que as letras sugerem.

Ainda que o minimalismo de "Hyperspace" soe como uma evolução na produção recente  de Beck, o disco não tem tantas canções memoráveis para marcar uma discografia tão abrangente quanto a dele. Interessante o suficiente para saciar os fãs de Beck, "Hyperspace" não indica novidades para a música pop atual. O que instiga a imaginação para o que uma colaboração com Pharrell poderia gerar, tivesse acontecido 15 anos atrás.

*por GaúchaZH

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