Elekfantz: "Estamos bem mais maduros que no primeiro disco"

08.11.2019 | 06h45 - Atualizada em: 11.11.2019 | 08h31
Marina Martini Lopes
Por Marina Martini Lopes
Editora
O Elekfantz é formado por Daniel Kuhnen e Leo Piovezani

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Lounge Itapema

Dupla de Santa Catarina, destaque na cena eletrônica mundial, conversou com a Itapema sobre a carreira e sobre seu novo trabalho, "Elements"

Definir o Elekfantz como uma dupla "de música eletrônica" não parece fazer jus às inspirações tão distintas que os dois artistas combinam em seu trabalho - não que a música eletrônica tenha algo de limitadora, ou ainda, que o Elekfantz não faça música eletrônica. Mas o fato é que Daniel Kuhnen e Leo Piovezani aproveitam tantas influências para criar seu som, que mesmo quem não é ouvinte habitual de eletrônico - como é o meu caso - pode se surpreender, e positivamente, com as faixas do duo.

Os próprios músicos se enrolam um pouco ao tentar definir o som do Elekfantz: "Eu acho que o Elekfantz jogou em um liquidificador todas as nossas influências, as coisas que a gente gosta de ouvir, combinadas com uma base de techno", Daniel tenta descrever. "Mas as faixas também têm uma estrutura de música pop e as canções, já que são músicas que você pode cantar junto. Quando as lojas virtuais e plataformas de streaming precisam classificar a gente, elas usam termos como 'indie-dance', 'indietrônico'... Para a gente, é bem difícil definir, mesmo."

Capa do EP "Elements: Part 1", que saiu em outubroFoto: Divulgação/Rodrigo Vipych

Talvez uma boa ilustração seja o acontecimento que marcou o início da história da dupla: em 2011, Leo, que há anos já trabalhava com música, foi a um show do DJ holandês Tiësto, vencedor do Grammy e um dos maiores representantes da cena eletrônica; e acompanhou também o show de abertura, assinado por Daniel. "Com todo respeito ao Tiësto, mas eu gostei muito mais do som do Dani", conta Leo, rindo. "Achei muito mais musical. Na época eu já queria fazer algo com eletrônico, então eu liguei para o Dani, e descobri que ele também estava em uma fase de querer fazer as próprias produções."

O telefonema só foi possível porque os dois já se conheciam há muitos anos: no início dos anos 1990, Daniel (que é florianopolitano) e Leo (que é de São Paulo, mas mora há muitos anos na capital de Santa Catarina) tinham o mesmo professor de música; e tocaram juntos algumas vezes, em jams informais e festas em casas de amigos. Na época, o rock e o blues eram os principais gêneros compartilhados pelos amigos; que mais tarde acabaram se afastando. "Quando o Leo me ligou, fazia muitos anos que não nos víamos", diz Daniel.

Entre a época em que estudaram música juntos e o reencontro, Leo e Daniel haviam seguido caminhos diferentes: Leo continuou trabalhando na área; fez um curso de verão na Berklee College of Music, nos Estados Unidos, e retornou ao Brasil, onde tocou com artistas como Paula Lima, Max de Castro, Simoninha e Cláudio Zolli (toda a "nova MPB" lançada pela gravadora Trama entre o final dos anos 1990 e o início dos anos 2000). O músico também fez parte da banda Os Chefes, forte representante do blues-rock catarinense. Foi durante um período de férias, passado em Nova York, que Leo se interessou pela música eletrônica, depois de frequentar os clubes da cidade. "Na época, o eletrônico ainda era uma coisa mais tímida aqui no Brasil, principalmente em Santa Catarina", relata.

O Elekfantz é formado por Daniel Kuhnen e Leo PiovezaniFoto: Rodrigo Vipych

Já Daniel foi puxado de volta para o universo da música no início dos anos 2000, durante uma viagem a Berlim. "Fui a vários clubes da cidade que hoje em dia são ícones da cena eletrônica", narra. "Foi lá que eu conheci o techno. O estilo de música eletrônica que era feito lá me chamou muito a atenção, porque era muito diferente. Eu não lembrava de já ter ouvido nada parecido sendo feito aqui no Brasil." A coisa começou a mudar, segundo o artista, com a inauguração do Warung Beach Club, em Itajaí, em 2002. "O Warung me lembrava muito os clubes que eu tinha conhecido lá em Berlim." Frequentador assíduo desde o primeiro dia, Daniel começou a estudar para se tornar DJ profissional. Começou a tocar em 2005, e em 2006 já era residente do Warung, posto que ocupou até 2012.

No reencontro entre Leo e Daniel, aparece mais um elemento que à primeira vista não tem nada a ver com a música eletrônica: Muddy Waters, lenda do blues considerado o pai de um dos subgêneros mais icônicos do estilo, o Chicago Blues. "Marcamos um café, no meio da tarde, em um dia de outubro, e passamos o dia inteirinho falando sobre música", diz Daniel. "Ficamos ouvindo música nos fones, trocando ideias, já pensando em algo que pudéssemos fazer juntos. O café estava fechando, dez, onze da noite, e continuávamos lá conversando. [risos] O Leo já tinha várias ideias, e algumas eram uma série de músicas baseadas em gravações do Muddy Waters. Eu achei ótimo, porque lá no início, quando tocávamos juntos, nós trabalhávamos muito o blues."

Foi Daniel quem apresentou as primeiras criações do Elekfantz - que, na verdade, ainda não se chamava Elekfantz - àquele que se tornaria o padrinho da dupla: Gui Boratto; com quem Daniel já havia feito turnês pela Europa, abrindo os shows do produtor. "Estávamos viajando para uma apresentação quando eu botei as músicas para tocar no carro, em um pendrive, sem falar nada. Até que uma delas chamou a atenção do Gui, e ele perguntou: 'O que é isso aí que está tocando?' Então eu expliquei toda a história a ele; meu reencontro com o Leo, as faixas que tínhamos criado juntos. O Gui disse para marcarmos um dia no estúdio dele, em São Paulo, para finalizarmos uma das músicas - e assim nasceu nosso primeiro single, Wish."

O selo Kompakt, que lançava as músicas de Gui Boratto na Alemanha, foi quem lançou Wish na Europa, em vinil - e, enquanto a estreia era preparada, Daniel e Leo ainda não tinham um nome para sua parceria. "Nós estávamos em estúdio, lá em São Paulo, e fomos conversando sobre nomes de que gostávamos, botando ideias na mesa", conta Daniel. "E eu lembrei do nome Elefantes, que era o nome de uma, digamos assim, 'banda imaginária' que eu tinha com alguns amigos e vizinhos na infância: nós não tocávamos instrumentos de verdade; nós batíamos panela, brincávamos, gravávamos umas coisas do Pink Floyd em fita e jogávamos nosso som por cima... [risos] E o nome voltou durante esse processo. Nós mexemos um pouquinho: botamos o 'Z' no final, de Piovezani; e um 'K' no meio, de Kuhnen, meu sobrenome - a gente até brincou que soava meio alemão." O nome permitiu que o duo permanecesse, de certa forma, anônimo, já que até a nacionalidade dos músicos era difícil de adivinhar - e fez com que, nas palavras dos artistas, a música pudesse "falar por si". "Nós fizemos uma pesquisa no Google, na época, e não encontramos nada chamado 'Elekfantz', escrito desse jeito - então o legal é que nós conseguimos acompanhar direitinho o crescimento do projeto na internet; quando as pessoas começaram a falar sobre a gente, quando matérias passaram a ser publicadas..."

Wish saiu no meio de 2012; e, em junho de 2013, foi seguida por Diggin' On You, primeiro single do álbum de estreia do Elekfantz, Dark Tales & Love Songs. Diggin' On You se tornou um dos hits do verão europeu; sendo adotada, por exemplo, pelo premiado DJ Solomun, que assinou um remix da canção. Dark Tales & Love Songs saiu em 2014, sendo divulgado, inicialmente, com uma série de shows na Europa. A música do Elekfantz que caiu no gosto dos DJs brasileiros foi She Knows, uma faixa que nem havia sido trabalhada como single, mas que começou a abrir espaço para a dupla em sua terra natal. Mais tarde, anos depois do lançamento, Diggin' On You fez parte da trilha sonora da novela A Regra do Jogo, da Globo; e, a partir de 2016, Leo e Daniel passaram a fazer mais shows no Brasil. Não por acaso, o período foi o mesmo em que a música eletrônica viveu um crescimento acelerado no país. "Em 2014, quando tocamos no primeiro Lollapalooza no Brasil, a tenda de música eletrônica era a menor do evento", comparam os músicos. "Agora, em 2019, nós nos apresentamos no festival de novo, e o palco de eletrônico era o segundo maior - só perdia para o principal." Hoje, o Elekfantz já soma quase 400 shows, em cerca de 30 países.

Atualmente, Leo e Daniel trabalham em seu segundo disco, Elements, que já ganhou três singles: Close to Me, When We Were Young e Work It Out - as três músicas foram lançadas no começo de outubro em um EP, Elements: Part 1, ao lado da inédita The Promise. "Eu acho que nós estamos bem mais maduros do que no primeiro trabalho, mais certos a respeito do que queremos", afirma Leo. "Não é uma questão de achar que um álbum é melhor que o outro - só que este segundo está mais próximo do que nós queremos fazer com o som do Elekfantz. Nós saímos do home studio e investimos tempo e dinheiro para testar masters e mixagens 'de gente grande', em estúdios grandes; em São Paulo, Londres, Los Angeles. Nos preocupamos em fazer uma gravação de excelência. Hoje em dia todo mundo ouve música nos fones de ouvido - e, de fones, você capta absolutamente tudo." Daniel acha que as composições também estão mais maduras. "No primeiro disco nós tivemos algumas músicas só instrumentais", diz. "Aqui, todas são canções. Todas têm letra."

Embora o trabalho leve Daniel e Leo com frequência a São Paulo, os dois músicos moram em Floripa - ambos na praia: Daniel no sul da ilha; Leo, no Norte. E os dois têm estúdios caseiros, onde podem trabalhar sempre que desejam. "Eu amo ficar em estúdio compondo, escrevendo, gravando. Nem sempre você está inspirado, né? Às vezes é bom dar um break, sair, passear, dar uma volta na praia", diz Leo. "Mas eu também gosto de transformar a composição em exercício - tentar escrever pelo menos um pouco todos os dias, mesmo que nem sempre fique bom." Os dois, é claro, também ouvem muita música - principalmente, segundo Leo, o que é "apresentado pelo algoritmo". "Eu ouço muito streaming, então às vezes só vou salvando as faixas de que gostei, montando minhas playlists, e nem sei de quem são aquelas músicas. Eu devo ter umas 40, 50 playlists salvas. Claro que às vezes eu cismo que quero ouvir um disco específico, aí vou lá ouvir um Depeche Mode, um The Cure. Mas acho que hoje em dia todo mundo mudou muito seu jeito de ouvir música. Eu mudei."

A Itapema também entra nessa história. "Eu ouço todos os dias, principalmente no carro", diz Leo. "A rádio sempre me apresenta coisas novas. E eu até já contribui com sugestões de músicas para a rádio." Daniel também se diz ouvinte assíduo: "Não existem muitas rádios com a programação tão interessante quanto a Itapema. Sem dúvidas é uma das rádios mais legais do mundo." Pelo menos uma vez por semana, as metades do Elekfantz se encontram para trocar ideias, melhorar o show, e produzir as músicas para tocar ao vivo. "A gente toca muito pista, clubes mesmo, então as músicas que o público ouve ao vivo não são as mesmas versões que ele ouve na rádio ou no Spotify", explica Daniel.

Agora, Daniel Kuhnen e Leo Piovezani trabalham na segunda parte do álbum Elements, que deve sair em EP até dezembro. Além das quatro músicas já lançadas, o disco ainda vai ter mais seis faixas inéditas. O trabalho completo tem lançamento marcado para o começo de 2020.

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