Black Pumas: Adrian Quesada fala sobre as origens da banda e um possível novo disco até o fim do ano

30.06.2020 | 09h40 - Atualizada em: 01.07.2020 | 12h17
Marina Martini Lopes
Por Marina Martini Lopes
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O produtor e multi-instrumentista Adrian Quesada, à esquerda, e o cantor Eric Burton, à direita

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Ao lado do cantor Eric Burton, o produtor e multi-instrumentista Adrian Quesada é uma das metades da dupla que estourou em 2019

Não foram só os fãs de Black Pumas que ficaram decepcionados com o adiamento dos shows que a dupla deveria ter feito no Brasil em abril deste ano: Adrian Quesada, uma das metades do duo, diz que ele e seu parceiro musical Eric Burton estavam muito empolgados para visitar o país. "Eu nunca fui ao Brasil", contou, em entrevista exclusiva à Itapema. "Foi muito triste quando os shows foram adiados. Sempre recebemos comentários de brasileiros no Youtube, no Instagram. Estamos muito animados para finalmente ir quando as novas datas chegarem e poder encontrar os fãs daí pessoalmente."

Criado no Texas, Estados Unidos, Quesada tem raízes latinas, fala espanhol fluentemente, e ao longo de 15 anos esteve à frente do Grupo Fantasma, de funk latino. Ele também é bastante atento à música brasileira; de artistas consagrados aos mais atuais: "Eu já trabalhei com Tita Lima [cantora brasileira, filha do produtor Liminha]; e acho que o Brasil tem muitos compositores incríveis - Caetano Veloso, por exemplo", afirma o produtor e multi-instrumentista. "Gosto de algumas coisas mais antigas, como Som Imaginário; e algumas bandas mais recentes, como Boogarins."

Com influências da Motown, e combinando toques de soul, rock, hip-hop, funk e psicodelia, a Black Pumas é uma banda de sonoridade difícil de definirDivulgação

Com influências da Motown, e combinando toques de soul, rock, hip-hop, funk e psicodelia, a Black Pumas é uma banda de sonoridade difícil de definir. "É bem difícil para mim, também", confessa Quesada, rindo. "Acho que é porque somos mesmo muitas coisas diferentes. 'Soul psicodélico' é uma boa aposta, porque reúne duas coisas de que realmente gostamos muito. Mas eu acho que o mais importante mesmo é que nós fazemos o nosso soul. É uma coisa muito sincera. Não estamos tentando ser alguma coisa que não somos."

O "soul do Black Pumas" deu muito certo: tendo lançado seu álbum de estreia, auto-intitulado, em junho do ano passado, os artistas viralizaram com o vídeo do single Colors, que foi seguido pelas faixas Black Moon Rising e Fire. Além de agradar ao público, as músicas acertaram em cheio com a crítica: o duo foi indicado a nada menos que o Grammy de Artista Revelação neste ano, ao lado de nomes como Billie Eilish e Lizzo.

"Ser indicado ao Grammy foi incrível - definitivamente não era algo que estávamos esperando", declara Quesada. "Foi uma surpresa total para nós dois. E, claro, nos sentimos muito lisonjeados. Mas acho que nós passamos os últimos meses tão envolvidos em turnês e shows que nem tivemos tempo para de fato parar e pensar a respeito e aproveitar isso, sabe? Foi mais 'caramba, isso aconteceu! Incrível!', e nós seguimos trabalhando."

Mas como surgiu o Black Pumas? Quesada narra: "Quando saí do Grupo Fantasma, eu comecei a me dedicar mais a produzir e compor, e também a trabalhar com outras pessoas - toquei em vários projetos diferentes. Em 2013, eu comecei a escrever alguns blues para um projeto do qual eu estava participando; só que algumas das músicas que eu escrevi meio que não se encaixavam naquele projeto. Eu estava tipo 'o que eu faço com isso aqui?', e percebi que precisava de outro músico para me ajudar. Eu entrei em contato com bastante gente e pedi indicações; até que um amigo meu me disse 'você precisa conhecer esse cara, Eric Burton'."

A afinidade entre os dois músicos foi imediata: "Nós nos conhecemos e começamos a trabalhar em algumas faixas no estúdio, pesquisar música, sem compromisso, e eu percebi que tínhamos uma química muito boa", conta Quesada. "Ele tem uma voz incrível e é um excelente compositor. Foi assim que o Black Pumas nasceu, em 2017. Originalmente, nós nem pretendíamos ter um projeto juntos nem nada assim: começamos a criar algumas canções mais por diversão; até porque nós dois estávamos envolvidos em outras coisas, trabalhávamos com um monte de gente. Mas eu gostei muito da energia dele, não só dele como artista. Ele é muito carismático, tem muito entusiasmo pelas coisas, tem uma faísca que faz as coisas ganharem vida."

Tendo lançado seu álbum de estreia, auto-intitulado, em junho do ano passado, os artistas viralizaram com o vídeo do single "Colors", que foi seguido pelas faixas "Black Moon Rising" e "Fire"Divulgação

Nossa entrevista com Adrian Quesada aconteceu no ápice das mais recentes manifestações contra o racismo que tomaram conta dos Estados Unidos após o assassinato de George Floyd. "É triste que tenha que acontecer algo assim para que as pessoas finalmente comecem a prestar atenção em algo que vem acontecendo há décadas, há séculos, e ainda não foi solucionado", reflete Quesada, quando perguntado a respeito. "Mesmo com tanto progresso que temos na sociedade, ainda há o racismo; muitas vezes de um jeito sutil, por baixo dos panos. E é triste também ver como muitos protestos se tornam violentos, ou despertam respostas violentas. Mas também é bom ver as pessoas reagindo, e é bom ver a sociedade debatendo sobre isso e buscando mudanças. É importante que as pessoas aproveitem este momento para realmente causar um progresso, e não permitir que isso seja esquecido ou ignorado mais uma vez.

As novas datas da turnê do Black Pumas pela América do Sul ainda estão longe: as apresentações foram todas remarcadas para janeiro de 2021 - no Brasil, os shows acontecem em 15 e 16 de janeiro; respectivamente no Cine Joia, em São Paulo, e no Teatro Erotídes Campos, em Piracicaba. Por enquanto, Adrian Quesada está vivendo como muitos brasileiros: em casa, respeitando o distanciamento social necessário para conter a disseminação do coronavírus.

"No começo da quarentena eu aproveitei para fazer algumas coisas que não fazia há muito tempo", explica Quesada. "Eu tenho esposa e filhos, e, com a vida de turnês, acabo passando pouco tempo em família. Aproveitei para ficarmos juntos, relaxar um pouco. Mas eu estou criando, sim, bastante; estou no meu estúdio em casa, e escrevendo muito. Estou ouvindo bastante música, bastante hip-hop. Está sendo uma experiência diferente, um jeito novo de compor; já que eu não posso me reunir com outras pessoas em estúdio para fazer isso. É meio que eu comigo mesmo, descobrindo novos jeitos de produzir ou como compor melhor."

Mas, para os fãs, o período de isolamento dos músicos pode resultar em uma boa notícia: "Nós já começamos a trabalhar em um novo álbum", Adrian Quesada revela. "Ainda estamos nos estágios iniciais, escrevendo, gravando uma coisa aqui, outra ali - mas eu espero que nós consigamos completar o disco até o final deste ano."

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