ENTREVISTA: Ben Harper escreve em "Bloodline Maintenance" canções de denúncia e esperança; "sentimento de libertação"

29.07.2022 | 10h56 - Atualizada em: 29.07.2022 | 11h54
Mariana de Ávila
Por Mariana de Ávila
Ben Harper

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Em conversa exclusiva com a Itapema FM, cantor norte-americano falou sobre novo álbum, como a família o influenciou na música e planos futuros.

"Eu faço músicas sobre assuntos pesados, mas sempre buscando um lado leve, sem deixar de ser consciente", define Ben Harper sobre o momento atual da trajetória musical. O cantor lançou na semana passada "Bloodline Maintenance", o 17º álbum de estúdio. O projeto conta com 11 músicas que transitam entre soul, rock, funk, blues, além de coros a capela que lembram o gospel.

Os temas das músicas são densos, perpassam relações, desigualdade, preconceito e racismo. "Uma das coisas que eu queria transmitir neste disco era o meu sentimento de libertação. A música é como eu consigo traduzir as coisas que eu carrego no dia a dia, as coisas que me afetam. Então, compartilhar canções pra mim está baseado nesta libertação, é uma parte importante do que eu faço. E eu espero que quando alguém aperte o play do disco, esse sentimento seja palpável", explica o cantor.

"Algumas pessoas querem letras e outras querem o groove. Eu sempre fico fascinado sobre quem gravita em torno do que. Eu acho que eu sou um pouco dos dois. Eu me apego ao que eu sinto", conta Ben Harper, sobre seu processo criativo e relação com a música.

Mesmo em tempos intolerantes, que exigem luta por direitos, o cantor diz permanecer otimista. Em um dos single do projeto, "We Need To Talk About It" - que está na programação da Itapema FM -  ele clama sobre a necessidade de falarmos sobre os impactos da escravidão no mundo. Ben Harper entoa sobre o comprometimento de todos em refletir sobre valores humanos, reparação histórica, justiça e compaixão.

A música foi gravada em parceria com os cantores de apoio do artista Jackson Browne, em uma sessão que Ben considerou uma das mais prazerosas da carreira. "Foi incrível tê-los comigo. As vozes nesta canção são ao vivo. É tudo cantado no mesmo quarto, ao redor de um microfone. Eu espero que todo mundo consiga sentir a textura que é capturar todas as vozes no mesmo quarto. Você talvez não saiba disso quando estiver ouvindo, mas tem um sentimento que bate. E é uma das músicas que eu toco todos os instrumentos, então foi empolgante".

Assista uma apresentação ao vivo de "We Need To Talk About it":

Na capa de "Bloodline Mantainence" está o pai do músico, Leonard Harper. A família, inclusive, foi a grande responsável pelo cantor ingressar no mundo musical. Ele cresceu visitando a loja de instrumentos dos avós, "The Folk Music Center and Museum". O local permanece aberto, na Califórnia, e há 27 anos o próprio Ben Harper é o proprietário.

"Eu ousaria dizer que nós éramos a única loja de discos em 1958 que tinha um cavaquinho e um berimbau. Nós tínhamos cítarras, tablas e instrumentos de percussão africana. Nós fomos a primeira loja de instrumentos internacionais. O interesse era do meus avós, e dos meus bisavós. E a minha avó dava aula de música, ensinava os instrumentos. Então, tem instrumentos de todos os lugares do mundo e crescer ali naquele ambiente foi muito bom na infância", lembra.

Ben Harper também considera família os que o acompanham numa jornada de vida. Alguns músicos são parceiros de estrada há mais de 30 anos, integrantes do The Innocent Criminals. O artista ressalta que não se acomoda, sempre busca evoluir por ele e pelas pessoas ao redor, e nunca para de projetar os rumos futuros. 

"Eu sempre tenho um plano. Quando você cresce num ambiente hostil, que o que você come na janta depende no que você vende naquele dia, a pessoa sempre tem que ter um plano".

Um novo projeto já estaria engatilhado, mas sem data de lançamento. "Eu quero fazer um álbum bem direto, apenas vocais e melodia, com o que eu criar, eu e o meu violão. É algo que eu ainda não fiz. Ainda não fiz apenas um álbum folk. A ideia é que seja quase como demos. Como Bruce Springsteen em Nebraska. O novo disco tem que ter um jeito B-Side com um sabor A-Side", conclui. 

A turnê de "Bloodline Maintenance" passa agora pela Europa e tem datas neste ano nos Estados Unidos. Por enquanto, não há shows previstos no Brasil. "Mas eu preciso voltar pro Brasil. O show em Santa Catarina, na praia (em 2011, de graça, em Florianópolis na Praia do Campeche), foi muito divertido. Eu lembro muito bem. Foi incrível", finaliza.

Escute o álbum completo "Bloodline Maintenance":

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