Guia de arquitetura propõe roteiros para conhecer acervo modernista de São Paulo

12.01.2020 | 16h45 - Atualizada em: 12.01.2020 | 16h42
Anna Rios
Por Anna Rios
arquitetura propõe roteiros para conhecer acervo modernista

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Livro privilegia proximidade espacial dos edifícios e sugere experimentação concreta da cidade

São Paulo não costuma ser associada à arquitetura de qualidade ou a modelos exitosos de urbanismo. Nas representações da metrópole, se repetem narrativas sobre uma selva de pedra cinza e desigual que cresceu sem planejamento, na esteira do mercado imobiliário e da indústria automobilística.

O livro "Um Guia de Arquitetura de São Paulo: Doze Percursos e Cento e Vinte e Quatro Projetos", no entanto, oferece uma perspectiva menos pessimista da urbanização paulistana. Organizada por Fabio Valentim, arquiteto urbanista e professor da Escola da Cidade, a obra reúne projetos arquitetônicos de relevo construídos na cidade a partir da década de 1930.

Predominam no guia edifícios do período moderno, mas o livro também apresenta projetos recentes, desenhados por arquitetos herdeiros dos traços que marcaram o modernismo paulista. Artacho Jurado, Franz Heep, Lina Bo Bardi, Oscar Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha são autores que têm destaque no guia.

Os projetos não são apresentados em ordem cronológica -a obra privilegia, em seu lugar, a proximidade espacial dos edifícios, com o objetivo de incentivar leitores a percorrer a cidade para conhecer prédios com linguagens e usos diversos. Há casas, prédios residenciais, torres comerciais, parques, escolas e clubes entre as 124 obras.

Para isso, o livro se estrutura em 12 roteiros, que abarcam do centro histórico a áreas periféricas, como o extremo sul de São Paulo e Guarulhos.

"A intenção é reforçar o vínculo entre geografia e arquitetura, enfatizando os aspectos urbanos de inserção das obras. Quem fizer esses roteiros vai conhecer não só as obras elencadas, mas uma cidade de quase 20 milhões de habitantes, com toda a sua complexidade urbana exposta", disse Valentim em debate de lançamento do livro no dia 19 de novembro, no auditório da livraria Martins Fontes.

O arquiteto defendeu que, para compreender a arquitetura, é preciso voltar a vivenciar concretamente a cidade. "Nesse mundo de hoje, em que temos um bombardeio de imagens e informações digitais, a experiência da obra é muito relevante."

Também participaram do debate, promovido pela editora da Casa da Cidade com apoio do jornal Folha de S.Paulo, a arquiteta urbanista Marta Bogéa, professora da FAU-USP, e o crítico de arte Lorenzo Mammi. Francesco Perrotta-Bosch, ensaísta e colaborador da Folha de S.Paulo, mediou o evento.

Bogéa elogiou a proposta de o livro não tentar compilar exaustivamente a produção arquitetônica paulistana. Para ela, "definir percursos e apresentar cartografias é um convite para compreender a incompletude de qualquer guia".

A arquiteta afirmou que, na década de 1980, quando foram publicados outros dois guias da arquitetura paulistana ("Arquitetura Moderna Paulistana", de Alberto Xavier, Carlos Lemos e Eduardo Corona, e "Residências em São Paulo: 1947-1975", de Marlene Acayaba), era extremamente necessário realizar um esforço para organizar a história dispersa da produção arquitetônica da cidade.

A existência dessas obras permite, em sua opinião, que "Um Guia" possa se estabelecer na literatura sobre a cidade destacando a heterogeneidade de São Paulo, para além de uma compilação de edifícios monumentais.

Para Lorenzo Mammi, o livro desempenha uma dupla função. De um lado, é um documento útil para arquitetos e interessados pelo tema, por oferecer acesso a informações sistematizadas sobre edifícios relevantes da cidade. 

Além disso, o livro é uma tentativa de afirmação histórica de uma escola arquitetônica, em sua opinião. Isso faz com que a obra se diferencie de guias tradicionais, baseados em listas de prédios classificados como patrimônio histórico.

"O livro tem que estabelecer, de alguma maneira, um cânone. Mesmo que se diga que ele tem apenas uma amostra, ele tem um partido. É um guia da arquitetura modernista", disse.

Para o crítico, é possível encontrar na obra "uma definição estética, que é o perfil de uma geração de arquitetos que reconhece mestres como Paulo Mendes da Rocha e Vilanova Artigas".

Marta Bogéa, da FAU-USP, considera que o livro reflete o "compromisso de arquitetos urbanistas frente às tantas outras dicções que nós nos justapomos". "Ao fazer arquitetura, estou engendrando cidade. Se não for na polifonia e na diversidade, talvez nós perdêssemos o melhor", completou.

*por GaúchaZH

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