Jorge Ben e impacto de sua guitarra elétrica dominam livro sobre "África Brasil"

16.11.2020 | 11h57 - Atualizada em: 17.11.2020 | 08h17
Por Folhapress
Jorge Ben Jor no livro "África Brasil"

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Mundo Itapema

Na obra, a autora narra alguns dos principais momentos do músico e traz entrevistas com pesquisadores e artistas

Expor detalhes da vida pessoal a jornalistas, ou até mesmo a amigos íntimos, não parece ser o tipo de atividade que interessa muito a Jorge Ben Jor, pelo contrário. Mesmo tendo influenciado de modo direto alguns dos maiores movimentos culturais do Brasil, sobretudo o tropicalismo, o artista carioca tem uma vida reservada e rodeada de mistérios, assim como têm aqueles a que ele se dedica a estudar e a retratar em muitas de suas canções - os alquimistas.

A quantidade de entrevistas dadas pelo músico é até bem baixa se comparada a de outros artistas brasileiros com níveis de fama semelhantes. Não é tão simples o convencer a falar sobre sua vida. No entanto, a jornalista Kamille Viola, que pesquisa sobre o músico há mais de uma década, o entrevistou na pandemia para escrever África Brasil: Um Dia Jorge Ben Voou para Toda a Gente Ver, livro recém-lançado pela coleção Discos da Música Brasileira, do Sesc.

A obra traz a história do álbum África Brasil, de 1976, um marco tanto na carreira de Jorge quanto na música brasileira. A autora narra alguns dos principais momentos do músico e traz entrevistas com pesquisadores, artistas e até mesmo craques do futebol. Nomes como Zico, Mano Brown, Gilberto Gil, Marcelo D2, BNegão, Gustavo Schroeter, Lúcio Maia, Jorge Du Peixe e Dadi comentam no livro a importância do artista e do disco no país.

Ao lado de A Tábua de Esmeralda, de 1974, e Solta o Pavão, de 1975, África Brasil faz parte da tríade mística do artista, conhecida por retratar o universo da alquimia, uma de suas grandes paixões. A obra é também o seu 14º álbum, vendeu cerca de 60 mil cópias quando lançada e aparece em 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer, de Robert Dimery. Mas não é exatamente nenhuma dessas características que torna África Brasil um clássico da música brasileira.

É neste álbum que Jorge dá adeus ao violão para assumir de vez a guitarra elétrica, instrumento que, aliás, foi alvo de protestos na década anterior. Logo na primeira faixa, Ponta de Lança Africano (Umbabarauma) é possível notar o som rasgado da guitarra acompanhado pelo batuque do samba e por fortes influências do soul e do funk dos Estados Unidos da época.

Trazendo uma sonoridade única com cuíca, tambores, instrumentos de percussão cubana e de sopro - além do som eletrificado da guitarra, é claro -, o disco passa por assuntos como futebol, amor, Idade Média, alquimia, diáspora africana, negritude e infância. Viola define a obra como "um bom panorama dos temas mais recorrentes do universo jorgebeniano".

É em África Brasil que o artista aumenta sua fama de diversidade musical e talento promissor, que já vinha há anos ganhando destaque. No livro, a autora mostra que Chris Blackwell, fundador da gravadora Island Records - responsável por revelar Bob Marley ao mundo com o disco Catch a Fire -, tentou na década de 1970 fazer de Jorge uma grande revelação mundial, mas só não teve o desejo totalmente concretizado porque o próprio artista não demonstrou tanto interesse. O disco África Brasil é ainda um dos precursores do cantar falado, que viria futuramente a ser muito usado pelo rap brasileiro, e uma ruptura da ideia de democracia racial no país.

Embora Jorge já tenha sido diversas vezes definido como "um músico alienado" por artistas e críticos musicais, o livro mostra que grande parte de sua obra é inteiramente voltada a exaltar a identidade negra e povos africanos. A última faixa de África Brasil traz uma versão de Zumbi - com uma letra cheia de referências ao período escravocrata brasileiro- marcada por um vocal ravioso que chega a quase convocar os negros a se unirem para uma revanche.

São muitas as canções em que o músico faz referências explícitas à beleza negra, à diáspora africana, à África - sobretudo mulçumana - e a suas musas negras, das quais a mais famosa é, sem dúvida, Tereza. Mas mesmo assim, há quem o critique pela ausência de um embate mais direto.

Segundo Viola, essa percepção não passa de racismo. "Muitas vezes as pessoas são racistas até quando o tentam elogiar", diz ela. "Falam que ele é um gênio e nasceu com um dom divino. E excluem, assim, toda a intelectualidade por trás de suas obras".

"Até hoje há quem o considere despolitizado, é um absurdo. Precisamos reconhecer que ele sempre tocou na questão racial. Foi ele, aliás, quem parou de retratar a mulher negra como um objeto sexual, e a mostrou como alguém digno de ser amado. Isso é bem revolucionário. Ele ajudou a construir um imaginário positivo sobre o negro no Brasil".

O músico, filho de mãe instrumentista e pai compositor e ritmista, teve contato com o universo artístico logo cedo. Quando criança já tocava surdo no Cometas do Bispo, banda que seu pai integrava, e participava de eventos na Salgueiro. Aos 13 anos, aprendeu a tocar pandeiro. E, na adolescência, ingressou num seminário católico, onde teve contato com a música sacra e aulas de canto, órgão e piano.

Foi revirando informações sobre o seu passado que Viola encontrou alguns enigmas que reforçam a onda misteriosa por trás de um dos maiores nomes da música brasileira. Um deles é a idade de Jorge. Atualmente, ele afirma ter nascido no dia 22 de março de 1945, contudo em 1963 ele dizia ter 21 anos - assim, teria que ter nascido em 1942. Mas a autora do livro encontrou sua provável certidão de nascimento e a data registrada é 22 de março de 1939, ou seja, ele teria hoje 81 anos.

A questão da idade parece ser muito relevante para o artista, que já chegou até a brigar com Tim Maia, que era um de seus amigos mais próximos, depois de saber que o músico fez piadas com o assunto no antigo programa de Jô Soares, da TV Globo. Viola narra também os bastidores das principais polêmicas nas quais o carioca se envolveu, como o processo que levou pela música Filho Maravilha - na época, com o nome Fio Maravilha - com uma letra homenageia o então jogador de futebol João Batista de Sales, e as coincidências entre Da Ya Think I'm Sexy?, de Rod Stewart, e Taj Mahal, que geraram uma série de discussões sobre plágio musical.

O livro traça ainda semelhanças entre Jorge e o período medieval, principalmente pela sua relação artística com o trovadorismo. Vocais dramáticos - com melismas árabes -, letras de amor platônico - muitas vezes, por uma musa inatingível - alquimia, príncipes, princesas, reis, rainhas e guerreiros - geralmente, todos negros - são destaques na obra do músico.

"O Mano Brown me disse que quando ouvia Jorge na juventude sonhava com tudo, desde Nova York até a Idade Média, enquanto estava no Capão Redondo", disse a autora. "É isso que o Jorge faz. Ele deixa as pessoas sonharem. E, no livro, tentei mostrar sua importância para os negros, a arte e o Brasil".

África Brasil: Um dia Jorge Ben voou para toda a gente ver
E-book à venda em Amazon, Google Play Livros e Kobo
R$ 15
De Kamille Viola
Edições Sesc SP
Coleção Discos da Música Brasileira

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