"Led Zeppelin IV", disco de "Stairway to Heaven", faz 50 anos e ainda impressiona

14.11.2021 | 11h00
Folhapress
Por Folhapress
Led Zeppelin IV

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O álbum e a música transformaram os quatro integrantes do Led Zeppelin em estrelas mundiais

Um dos álbuns mais amados da história, definidor do hard rock dos anos 1970, Led Zeppelin IV fez 50 anos na última semana. É o disco que traz a canção Stairway to Heaven, um ícone do gênero, e que transformou os quatro integrantes do Led Zeppelin em estrelas mundiais, cultuados até hoje. Como acontece com praticamente toda grande obra, a produção de IV teve percalços, dúvidas e surpresas. Respeitadíssima, a banda havia estreado com dois bons discos de rock em 1969, mas o terceiro, de 1970, havia sido mal recebido pela crítica - embora não pelo público.

De Led Zepellin III foi escrito, por exemplo, que as canções pesadas eram muito cruas e parecidas entre si. E que o material folk não passava de imitação de Crosby, Stills, Nash & Young. Assim que III saiu, Jimmy Page e Robert Plant começaram a compor novas músicas. Incomodada com as críticas, a banda desistiu de sair em turnê para promover o novo disco e se isolou numa casa de campo no sul da Inglaterra. Ali, entre jams e reuniões em frente à lareira, os quatro passaram o inverno, compuseram e gravaram as oito canções de IV entre dezembro de 1970 e fevereiro de 1971, com produção de Page.

O equipamento usado foi o famoso estúdio móvel dos Rolling Stones, montado na caçamba de um caminhão e que era alugado para outros artistas quando Jagger e Richards não estavam gravando. Uma primeira mixagem foi descartada, e a segunda, feita em julho de 1971, deu certo. Talvez para responder às críticas sobre o anterior, Page enfiou na cabeça que o novo álbum não teria título e que o nome "Led Zeppelin" nem sequer estaria escrito na capa. Em vez disso, cada membro do grupo criaria ou escolheria um símbolo. O de Page, que parece ter a palavra ZoSo estilizada, sobrevive até hoje nas camisetas pretas envergadas pelos fãs. Para a imagem da capa, escolheram um quadro antigo que Plant havia comprado numa loja.

O título pelo qual o disco é conhecido, afinal, não é de verdade. É um apelido que segue lógica dos álbuns anteriores, que simplesmente traziam o nome da banda e números romanos. A gravadora tentou de todo jeito demover a ideia de lançar a obra sem o nome da banda estampado, mas Page segurou as fitas e só as entregou quando a Atlantic Records aceitou fazer como ele queria.

Black Dog abre o disco com potência, no estilo cantor gritando uma frase e guitarra respondendo com outra. O riff, complexo e com mudanças de tempo, foi escrito pelo baixista John Paul Jones. O cachorro preto do título se refere a um cão que rondava a propriedade onde a banda estava. Mas a letra de Plant pouco se refere a ele, preferindo desfilar lamentos sobre sexo e mulheres. O mesmo se pode dizer sobre Rock and Roll, que traz um riff clássico do gênero, inspirado em Chuck Berry. Já a empolgante bateria de John Bonham, que abre a música, é quase um decalque de Keep A-Knockin', de Little Richard.

Ian Stewart, o "sexto stone", que tocou piano em diversos clássicos dessa banda, estava "alugado" junto com o estúdio móvel e participa castigando as teclas em Rock and Roll. Uma segunda participação especial é a da cantora Sandy Dennis, da banda folk Fairport Convention. Ela e Plant fazem um dueto na delicada The Battle of Evermore, inspirada num livro sobre as guerras de independência escocesa do século 14 que Plant estava lendo.

Black Dog e Rock and Roll saíram em compactos na ocasião, mas o que a Atlantic Records queria mesmo para o single era Stairway to Heaven, a quarta canção do disco, que fecha o lado A. Plant depois contou em entrevistas que a banda não aceitou por duas razões. Primeiro porque queriam que a canção fosse ouvida no contexto do álbum. Segundo porque se os épicos oito minutos e dois segundos saíssem em compacto, provavelmente com metade de cada lado, o próximo passo seria uma versão condensada para facilitar que tocasse nas rádios.

Essa possibilidade horrorizava, com razão, a dupla. Stairway to Heaven é uma canção construída em três partes distintas, que não se repetem como numa música normal. Aqui, o primeiro movimento evolui para o segundo e depois ao terceiro, cada qual mais rápido, mais barulhento e mais empolgante que o anterior. Mexer nessa arquitetura seria um desastre anunciado. Impressionados com as palavras que Plant escreveu - que não traz uma história, mas um mosaico de observações sobre a vida -, pela primeira vez o Led imprimiu a letra de uma música, no encarte de papel interno. "Desta vez, tínhamos o que dizer", disse Plant em uma famosa declaração. "Quando li as duas primeiras linhas que havia escrito, quase caí da cadeira", disse o cantor.

Segundo um biógrafo da banda, Stairway to Heaven foi a música mais pedida nas rádios americanas durante a década de 1970. A parte inicial da canção foi inspirada em Taurus, faixa de 1968, da banda americana Spirit, com quem o Led Zeppelin excursionou nos anos 1960. Em 2016, uma ação contra os ingleses chegou a uma corte nos Estados Unidos, mas não teve sucesso.

O lado B de Led Zeppelin IV não acompanha a excelência do lado A. Misty Mountain Hop é uma canção esquisita e sem direção, enquanto Four Sticks não passa de um rock ordinário. Going to California, no entanto, é uma das mais belas baladas que o Led Zeppelin já gravou. Inspirada por Joni Mitchell, de quem Plant era fã, traz um dedilhado envolvente e ensolarado. O disco fecha com um cover de 1929, When the Levee Breaks, de Memphis Minnie e Kansas Joe McCoy, que fala de uma enchente do estado americano do Mississippi em 1927. A banda retrabalhou a música - e teve a pachorra de assinar a composição ao lados dos veteranos. É um rock demolidor, com uma gaita assassina e maravilhosa, tocada por Plant, e que encerra de forma valente esse álbum tão especial.

Led Zeppelin IV vendeu 37 milhões de cópias no mundo desde 1971 e provavelmente vai continuar sendo ouvido pelos próximos 50 anos. Nada mal para um enorme zepelim que parecia ser mais pesado que o ar.

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