O que faz uma música soar triste ou alegre?

02.12.2019 | 10h30 - Atualizada em: 02.12.2019 | 10h28
Por Marina Martini Lopes
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Ao ouvir música, nós inconscientemente revisamos nosso catálogo interno, um registro de tudo o que já ouvimos e achamos digno de ser gravado em nossas memórias

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Um artigo publicado por um psicólogo especialista em música aborda a questão com exemplos interessantes

Em música, muita coisa depende do gosto pessoal - quais canções, estilos, ritmos vão ser considerados mais ou menos belos, por exemplo. Mas uma coisa se mantém constante: músicas compostas em escala maior (ou seja, com acordes maiores) são consideradas felizes; e músicas compostas em escala menor (com acordes menores) são consideradas tristes - e isso independe da percepção individual do ouvinte, ou mesmo do contexto histórico ou cultural em que ele está inserido. As escalas são os modos musicais utilizados na música tonal, e influenciam grandemente como uma composição vai soar para quem a ouvir.

Claro, há exceções - muitas vezes, criadas justamente com o propósito de ser disruptivas, e provocar o sentimento "contrário" ao que seus pares musicais costumam despertar: é o caso, por exemplo, de Moondance, de Van Morrison (que soa alegre, apesar de ser composta em escala menor), ou Dinner At Eight, de Rufus Wainwright (um exemplo de música triste em escala maior). Mas faixas como essas estão longe de ser a regra. Na última semana, Vicky Williamson, professor de Psicologia Musical da Universidade Goldsmith, escreveu um artigo interessante sobre o assunto para o site NME, em que fornece um exemplo claro: Losing My Religion, do R.E.M., editada em escala maior. Note como a atmosfera que envolve a música parece mudar totalmente:

Segundo Williamson, grande parte desse efeito se deve puramente ao condicionamento cultural. Ao ouvir música, nós inconscientemente revisamos nosso catálogo interno, um registro de tudo o que já ouvimos e achamos digno de ser gravado em nossas memórias: isso nos ajuda a criar uma expectativa do que vem mais à frente em cada canção especificamente, o que comprovadamente é uma parte importante do que nos faz gostar de ouvir música. O professor lembra que há pesquisas que indicam que já percebemos, selecionamos e catalogamos esses sons e tons por volta do quinto ou sexto mês de gestação, dentro das barrigas de nossas mães. Então nossas reações musicais costumam, pelo menos em parte, se basear em estereótipos.

Na cultura ocidental, faixas executadas em momentos divertidos ou de alegria, ou mesmo em grandes celebrações, são tradicionalmente escritas em escala maior - um exemplo é a clássica marcha nupcial de Mendelssohn, ou então a própria melodia do Parabéns a Você. Agora pense na marcha fúnebre de Chopin: eis um exemplo de uma composição em escala menor. Clássicos da melancolia, como Hurt, de Johnny Cash, Gloomy Sunday, de Billie Holiday, e Back To Black, de Amy Winehouse, são todos em escala menor.

Uma curiosidade é que, na última década, um estudo conduzido pelo psicólogo musical Glen Schellenberg mostrou que músicas pop em escala menor têm se tornado cada vez mais populares. Nossa relação com esses estereótipos está mudando, ou estamos ficando coletivamente mais tristes?

A influência cultural, porém, não explica sozinha nossas sensações ao ouvir faixas gravadas ou executadas em uma ou outra escala. Williamson comenta uma pesquisa conduzida por Thomas Fritz junto a uma tribo chamada Mafa, em Camarões: na época do estudo, os membros da tribo jamais haviam sido expostos à música ou às tradições ocidentais - mas, mesmo assim, ao ouvir canções em escala maior ou menos, apontavam quais soavam felizes ou tristes seguindo o mesmo padrão descrito acima. Ou seja, pelo menos parte do que faz uma canção parecer mais alegre ou mais soturna é algo intrínseco à própria música.

Foto: Unsplash

De modo resumido, o professor explica que um acorde com três notas, chamado tríade, pode soar mais harmônico ou mais dissonante, a depender das notas que o compõem: quanto mais próximas entre si forem as notas, mais dissonante a tríade soa - e as frequências pouco espaçadas passam ao ouvinte uma sensação de tensão, de desconforto. Acordes menores são menos harmônicos do que os maiores. E existe inclusive um intervalo musical, o trítono - um intervalo de três tons inteiros entre duas notas -, que na música clássica foi considerado tão dissonante e perturbador que passou a ser conhecido como "o som do diabo". A configuração desses detalhes inerentes à música, portanto, influencia a nossa percepção já de início, independentemente das referências encontradas em nosso catálogo musical particular.

Tem mais: Aristóteles já desconfiava de que o impacto da música em nossas emoções poderia ser determinado, ao menos em parte, pelo quanto as composições se aproximam ou não dos sons que nós mesmos fazemos, com nossas vozes, quando estamos alegremente contando uma história, chorando, ou então gritando de raiva. E de certa forma ele estava certo: Williamson comenta que o espectro sonoro que forma um discurso de alguém alegre é muito mais parecido com aquele que forma músicas felizes do que músicas melancólicas, e vice-versa. No caso das canções, a própria voz do intérprete acaba refletindo essas emoções, e nosso cérebro automaticamente cria uma empatia com os sentimentos aparentemente transmitidos, recriando as mesmas sensações em nós mesmos.

Há mais camadas interpretativas em uma canção ou composição do que costumamos supor à primeira vista (ou "ouvida"). Nossas reações ao ouvir música são de fato influenciadas pela cultura - mas definitivamente não só por isso.

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