"Parasita" mostra força do audiovisual sul-coreano ao fazer história no Oscar

11.02.2020 | 15h15 - Atualizada em: 12.02.2020 | 09h50
Por Folhapress
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Mundo Itapema

O filme de Bong Joon-ho foi o grande vencedor na premiação do último domingo (9)

Não é exagero chamar de histórica a vitória do prêmio de melhor filme do sul-coreano "Parasita" na cerimônia do último domingo (9) do Oscar. Contrariando previsões de especialistas e o rastro de prêmios que o épico "1917" vinha deixando nos últimos meses, o reconhecimento a "Parasita" marca a primeira vez em que a Academia de Artes e Ciências de Hollywood deu a estatueta mais cobiçada da noite a um filme falado numa língua diferente do inglês. "O Artista", uma coprodução França, Bélgica e Estados Unidos com elenco e diretor franceses, vencedor em 2012, era mudo, e caiu nas graças de Hollywood em parte graças à autorreferência, já que tinha como tema central os primórdios da sétima arte.

"Parasita" ainda foi o primeiro filme sul-coreano a participar da cerimônia em mais de 90 anos. E levou para casa quatro dos seis prêmios aos quais havia sido indicado, mais do que qualquer outro título na disputa. Seu diretor, Bong Joon-ho, derrotou Martin Scorsese e Quentin Tarantino na categoria de direção. Mas o que isso significa para o futuro da premiação, e de Hollywood como um todo?

A Academia iniciou um processo de renovação de seus quadros de votantes há mais ou menos cinco anos, em resposta a reivindicações como as da hashtag #OscarsSoWhite, crítica à falta de diversidade da edição de 2015 - então, nenhum dos atores indicados era negro. Com essa guinada, mais mulheres, negros, latinos e asiáticos, sem mencionar cineastas estrangeiros, passaram a ter seus pitacos levados em conta na premiação. Entraram inclusive alguns brasileiros, caso do diretor Kléber Mendonça Filho e do diretor de fotografia Walter Carvalho.

Até agora, no entanto, esse movimento parecia ter tido efeitos limitados. Se houve quem enxergasse na vitória de "Moonlight", sobre os percalços de um jovem negro e homossexual, o símbolo de uma virada - o filme tirou o troféu de melhor filme de "La La Land" em 2017 -, a cerimônia do ano passado fez muita gente perder as esperanças de uma Academia mais antenada com o presente. Afinal, naquela edição, "Roma", drama de Alfonso Cuarón filmado em preto e branco e centrado numa empregada doméstica indígena, perdeu para o morno "Green Book: O Guia", cujo retrato do racismo nos Estados Unidos nos anos 1960 mais reproduz os preconceitos da época do que propõe visões contemporâneas.

Neste ano, de novo, faltaram negros e mulheres entre os indicados. Na cerimônia, os premiados seguiam um roteiro previsível - até que "Parasita" começou a sacudir as coisas. O longa acompanha uma família pobre que se infiltra, com métodos para lá de discutíveis, no cotidiano opulento de uma casa de ricos. A imagem da enorme mansão modernista que eles aos poucos invadem é uma síntese afiada da sociedade cada vez mais desigual que, segundo Bong, é a Coreia do Sul hoje. E que também não é muito distante da do Brasil ou da dos Estados Unidos.

Seus oito concorrentes, a despeito de outras qualidades, pareciam muito mais ensimesmados. Só um terço deles fugia do rótulo "de época", e ao menos dois, "O Irlandês" e "Era uma Vez em... Hollywood" lidavam com uma crise da masculinidade. Some-se a essa capacidade de traduzir o espírito dos tempos um diretor carismático como Bong, cujas entrevistas tratavam com humor a pantomima das campanhas do Oscar. E o fato de o filme juntar respeitabilidade artística - foi, afinal, o vencedor da Palma de Ouro em Cannes no ano passado - e sucesso comercial, ganha ainda mais valor no Oscar. "Parasita" rendeu US$ 165 milhões (R$ 713 milhões) de bilheteria, com orçamento estimado entre US$ 11 e 13 milhões (algo entre R$43 e 50 mi), segundo o IMDb.

Vale lembrar ainda que por trás do longa está um programa de políticas públicas da Coreia do Sul. Iniciado nos anos 1990, foi, inclusive, muito semelhante ao adotado pelo Brasil, com incentivos fiscais para empresas privadas, cota de tela para filmes nacionais e a criação de um fundo público para produções audiovisuais. A política fez com que o cinema do país colhesse frutos em festivais internacionais e no restante da Ásia, no que foi apelidado, junto do sucesso do k-pop e das novelas, de "hallyu", ou onda coreana, muito antes de chegar ao Oscar. Um dos maiores conglomerados midiáticos da Coreia do Sul, a CJ Entertainment, atua não só no cinema, como também em áreas como a música.

Professor de cinema da Universidade Federal de Juiz de Fora, Luiz Carlos de Oliveira Jr. compara a organização da CJ àquela dos estúdios que reinaram na era de ouro de Hollywood. Com outros seis longas na bagagem, Bong seria, nesse sentido, o equivalente a um Hitchcock ou um Billy Wilder, diz o pesquisador. "Ele se afirma como um autor trabalhando na indústria, e não um mero artesão que apenas aplica as regras do sistema de representação em que está inserido."

"Parasita" não representa, portanto, apenas a vitória de uma equipe particularmente talentosa, mas de um plano de governo da Coreia do Sul. Por enquanto, o que é certo é a busca de Hollywood por canibalizar essa produção sul-coreana, afirma Oliveira Jr. No caso de "Parasita", ela já começou. A Hollywood Reporter revelou que a HBO está planejando uma minissérie de seis horas inspirada no universo do filme, escrita por Bong e por Adam McKay, de "A Grande Aposta" e "Vice".

Ainda não se sabe se ela será falada em inglês ou em coreano. A depender do resultado, pode ser que, para lembrar o discurso de Bong no Globo de Ouro, ainda não seja a hora de os americanos ultrapassarem a barreira das legendas.

*por Clara Balbi

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