'Rafiki' narra história de amor louco e maldito com fórmula tão antiga quanto o mundo

09.08.2019 | 17h45
Por Anna Rios
Rafiki

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Mundo Itapema

O longa da diretora queniana Wanuri Kahiu usa uma fórmula tão antiga quanto o mundo para narrar uma história de amor louco e maldito

Por GaúchaZH

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Como não ter simpatias pelo drama de duas garotas que se amam e, por isso, se tornam vítimas do preconceito? O longa da diretora queniana Wanuri Kahiu usa uma fórmula tão antiga quanto o mundo para narrar uma história de amor louco e maldito. Sinal de que os tempos mudam, alguns tabus perdem validade, mas a intolerância persiste ou até conquista mais adeptos.

Kena (Samantha Mugatsia) e Ziki (Sheila Munyiva) ocupam os mesmos lugares de Romeu e Julieta na tragédia de Shakespeare. Filhas de oponentes na política, as garotas se envolvem num relacionamento que terá na sociedade, até mais do que nas famílias, o seu maior impedimento.

As caricaturas da fofoqueira da rua, do discurso religioso contra a homossexualidade e do machinho homofóbico são facilidades que o filme adota em busca de eco social.

"Rafiki" não é, contudo, só filme-mensagem. Kahiu não poupa o molde repressivo dos países africanos, onde a maioria das mulheres não usufrui das conquistas do feminismo e onde violências físicas e simbólicas são costume.

Se denunciar é urgente, não é daí que o filme extrai força. Ela vem da energia e do movimento, da estética afro e pop que a diretora adota para dizer numa forma contagiante que o direito de amar é universal.

Kena se move de skate. Ziki dança na rua e caminha balançando seus dreads multicoloridos. A descoberta que uma faz da outra passa por signos físicos e de estilo.

Kena joga futebol com os meninos. Ziki admira o respeito que ela tem frente ao grupo de homens e, estimulada pela imagem, entra na partida. Ziki convence a namorada a usar vestido. Kena diz que tem alergia, mas aceita.

Assim como o pop é mistura, é dissolver hierarquias, é abertura à experimentação, o desejo das meninas é fluidez, é descoberta, é liberação.

Por meio desses sinais, a diretora expande nossa percepção para além das categorias prontas do cinema étnico ou do filme LGBT. E entrega um filme que acredita na moral da história, mas que não esquece que o cinema é também prazer dos sentidos.

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