Série 'A Divisão' mostra combate da polícia a onda de sequestros nos anos 1990, no Rio

Por Anna Rios
O ator Erom Cordeiro (Santiago) em cena da série

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Com direção de Vicente Amorim, trama é o 1° thriller policial do Globoplay

Por GaúchaZH

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Mostrar os surpreendentes bastidores de uma história conhecida é a ideia base da série "A Divisão", que estreia nesta sexta-feira (19) no Globoplay. O seriado policial revela como a onda de sequestros no Rio de Janeiro, em 1997, foi suprimida pela DAS (Divisão Anti-sequestro) da Polícia Civil.

"Todo mundo sabe que os sequestros acabaram no Rio, mas ninguém sabe como. Existe um bastidor que nunca foi revelado e mostramos isso", afirma José Júnior, criador da série e fundador da ONG Afroreggae, que chegou a negociar com líderes do tráfico da favela da Rocinha um cessar-fogo, durante um tiroteio, para que pudesse dar continuidade às gravações.

Protagonizada por Silvio Guindane e Erom Cordeiro, "A Divisão" usa como fio condutor a ação de dois policiais: o honesto e violento, Mendonça, e o corrupto e inteligente, Santiago, respectivamente. Os atores passaram por treinamentos com a polícia e estiveram em comunidades. "O fuzil virou quase uma extensão do meu corpo. Era um elemento que não podia ficar artificial", diz Guindane. 

O personagem de Erom é inspirado na história do ex-delegado José Luiz Magalhães, um dos roteiristas da série. "Conhecer Magalhães me deu muitas ferramentas de observação. Ajudou muito na composição do personagem, no subtexto", diz Cordeiro. 

Além dos treinamentos com a polícia, os atores do elenco como Natália Lage, Vanessa Gerbelli, Marcos Palmeira e o diretor, Vicente Amorim, presenciaram encontros entre policiais e ex-sequestradores -alguns, inclusive, foram presos pelos próprios agentes com quem se encontraram.

"Quando José Júnior me falou sobre a história, eu vi que tinha que conhecer as pessoas que fizeram aquilo e pedi que ele me apresentasse a elas. Isso levou ao processo de entrevistas com eles e aos encontros entre os policiais e os ex-sequestradores. O processo trouxe uma riqueza enorme para os personagens", afirma Amorim.

Para José Junior, o mercado audiovisual brasileiro não conseguiu atingir um grau de excelência no gênero policial/ação, com exceção de "Cidade de Deus" (2002) e "Tropa de Elite" (2007). Para o produtor, a série "A Divisão" tem a autenticidade que falta em outros produtos brasileiros do gênero. "Não gosto da maioria das coisas que eu vejo atualmente. A vida real não é a Disneylândia, o mocinho não beija a mocinha no fim. Os personagens da série são complexos tal qual as pessoas que os inspiraram."

Apesar de conviver com "traficantes, bandidos e policiais" há muitos anos, José Júnior afirma que se impressionou com algumas histórias que ouviu durante o processo de elaboração da premissa da série. "As pessoas não são totalmente más nem boas. Nem os bandidos nem os policiais. Claro, ouvi histórias horríveis de tortura feitas em cativeiros, mas também vi policiais que deixaram de passar Natal com a família para investigar casos."

A escolha de Silvio Guindane para o papel do delegado Mendonça foi uma estratégia, diz José Júnior. Para ele, falta "muita representatividade de negros em papéis nos quais possam ser chamados de doutor". "Falta [representatividade] em todas as áreas do audiovisual. Fiz de propósito, claro. O Afroreggae seria chamado de 'brancoreggae' se essa não fosse minha intenção. Normalmente se o filme é na favela, o vilão é preto. Não dá para ser assim." 

Guidane concorda com Júnior e diz que ainda existe um estereótipo de personagem interpretado por negros e é importante que haja uma diversidade de papéis. "Está melhorando, não podemos ver negros só interpretando escravos, em favelas, sendo bandidos."

Inicialmente, José Júnior teve a ideia de transformar o que as histórias reais que ouvia em um livro, mas em 2014 resolveu que faria uma série.  "A Divisão" tem promessa de duas temporadas, com cinco episódios cada uma.  Um filme sobre a história deve ser lançado em 2020. De acordo com o diretor, Vicente Amorim, apesar de seguirem o mesmo tema, os produtos são independentes e não se repetem. 

Para Amorim, "A Divisão" é uma série que atiça a curiosidade por abrir uma "janela para a classe média", que é o maior público consumidor de cinema e série. "O assunto faz parte da vida dessas pessoas mas elas não sabem como funciona uma ação policial, como é uma entrada no morro." 

Já José Júnior acha que grande parte do público vai se identificar com a série porque ela é "autêntica e real". "Na verdade, eu não estou nem aí para críticas. Quero que as pessoas assistam", diz.

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