Seu Jorge e Rogê resgatam cena de Santa Teresa e saudade do Brasil em disco

10.07.2020 | 14h30 - Atualizada em: 16.07.2020 | 09h16
Por Folhapress
Seu Jorge e Rogê

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Em parceria, os artistas lançam "Night Dreamer Direct-to-Disc"

"Achava que Seu Jorge era um coroa!", diz o cantor, compositor e violonista Rogê, que conheceu o cantor de "Burguesinha" no Rio de Janeiro, nos anos 1990. Na época, Seu Jorge integrava o grupo Farofa Carioca, coletivo que misturava samba, reggae, hip-hop e outros estilos. Rogê ficou impressionado quando viu a banda no palco. "O Farofa Carioca impactou a cena como fez o Nação Zumbi. Tinha uma atitude que me deixou chapado. Era muito interativo, tinha muita informação, as indumentárias, oito pessoas cantando, fazendo colagem de canções."

Desde o primeiro encontro, a dupla colabora frequentemente, mas sempre por trás dos panos - Seu Jorge já gravou músicas de Rogê, por exemplo. No fim de 2019, eles enfim selaram a parceria com um disco. "Night Dreamer Direct-to-Disc", com nome em inglês mesmo, foi gravado na Holanda, mas soa como Santa Teresa. As sete faixas do álbum trazem Jorge e Rogê em voz e violão, com participações de Peu Meurray e Pretinho da Serrinha nos arranjos e batuques.

"Fizemos umas três ou quatro músicas um dia antes", diz Seu Jorge, que, assim como Rogê, mora nos Estados Unidos, mas está passando a quarentena no Brasil. "Foi rápido porque tem um peso e um entrosamento de 25 anos de amizade", complementa o violonista. Uma das faixas do disco, "Caminhão", inclusive, foi escrita logo que os dois se conheceram. Rogê diz que estava passeando de carro quando encontrou Seu Jorge, que o convidou para "tirar um som" em casa. "Saiu muito rápido", diz Rogê. "Primeiro fizemos a melodia, depois a gente almoçou –um macarrão com salsicha–, sentou, apertou um baseadinho, e o Jorge começou a escrever a letra". Na época, lembra Jorge, "a gente era duro pra caralho". "O Rogê vendia suco." "Night Dreamer Direct-to-Disc" foi gravado no esquema direto para o vinil, que era riscado conforme as músicas eram tocadas. Tudo ao vivo e, a cada erro, a face inteira do do LP tinha que ser refeita.

"Você grava um lado inteiro. Então, se você errar a terceira música, no meio da canção, tem que voltar tudo", diz Seu Jorge. Para o lado A, eles precisaram de três takes. Para o lado B, foram outros dois. O resto do repertório, inteiro em português, é uma celebração da música e da cultura brasileira. A dupla canta sobre amizade e sobre o país de origem, partindo de um ponto de vista de artistas daqui que trabalham no exterior. A mais emblemática delas talvez seja "Meu Brasil", um samba que resgata ícones do país em uma saudade que é física e também conceitual. Eles falam sobre Marielle Franco, João Gilberto, Garrincha e Pelé.

"Tem uma coisa pessoal nossa, de estar aqui no mundo carregando essas coisas", diz Rogê. "Esse é um Brasil que pode não existir mais. mas esse é o Brasil que vale a pena. É o meu Brasil, o nosso Brasil. Não é esse Brasil do Bolsonaro, polarizado." Seu Jorge, inclusive, teve que ir às redes sociais recentemente para esclarecer um boato de que seria apoiador do presidente Jair Bolsonaro. "Não dá, não me identifico com nenhum pensamento dele. Aquela coisa se inflamou e, antes que as pessoas partissem para xingar umas às outras, expliquei. Nunca apoiei o governo e se teve alguma coisa é fake news."

"Night Dreamer Direct-to-Disc" foi tocado apenas nos Estados Unidos, em três shows lotados em Washington, Nova York e San Francisco. Depois, veio a pandemia. Mesmo do Brasil, Seu Jorge tem acompanhado as manifestações do movimento Vidas Negras Importam no país em que reside. "Não cabe a gente assistir a uma pessoa com o joelho no pescoço do outra, que está embaixo dela morrendo", diz. "Piora quando é um instrumento do estado, a polícia. É muito difícil ver esse aparelho do estado a serviço da tragédia, da barbárie, do descaso, da violência pura e gratuita."

Seu Jorge cita um comentário do intelectual americano Cornel West à CNN. "A cultura americana é baseada em comércio, mercado, e isso não está satisfazendo as pessoas, que vão atrás de algo que faça sentido para a vida, preencha a alma. Se o padrão desse modelo, os EUA, não vai bem, quem mais pode ir?"

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