HQ narra luta de brasileiros contra o nazismo na Segunda Guerra Mundial

24.01.2020 | 20h05
Por Folhapress
nazismo na Segunda Guerra Mundial

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A história é retratada na graphic novel 'Elísio: uma Jornada ao Inferno', do quadrinista estreante Renato Dalmaso

Aos 22 anos, o jovem Eliseu de Oliveira ajudou a derrotar o nazismo durante a Segunda Guerra Mundial. O soldado brasileiro, de São José dos Campos, integrava a Força Expedicionária Brasileira (FEB) e desembarcou na Itália em 1944 para combater as tropas de extrema-direita. O nazismo matou mais de seis milhões de judeus durante a guerra.

Antes de ser capturado e levado para um campo de concentração na Alemanha, colaborou na captura de cinco alemães do exército de Adolf Hitler. Morto em 2012, sua atuação heroica na captura dos inimigos lhe rendeu uma condecoração.

No trajeto de trem para o campo de concentração, suportou com os demais prisioneiros os vagões lotados e com fezes até as canelas. Agora, sua história é retratada na graphic novel "Elísio: uma jornada ao inferno", do quadrinista estreante Renato Dalmaso, de 38 anos.

O livro foi lançado pela editora gaúcha Avec, com sede em Porto Alegre, e teve financiamento do ProAC (Programa de Incentivo Cultura do Estado) de 2018.

O termo Elísio está relacionado com os "Campos Elísios" da mitologia grega, local do mundo dos mortos, governado por Hades, para onde iam os homens corretos após a morte.

"O tema de guerra sempre me inspirou, não que eu goste da guerra propriamente dita. Sou pacifista nato. Porém, é um assunto que acaba trazendo reflexões. São situações de extremos. A guerra é a pior coisa que pode acontecer com o ser humano. É o humano quase virando um animal", disse Dalmaso à reportagem.

Quando optou por roteirizar e desenhar uma história em quadrinhos sobre a Segunda Guerra Mundial, decidiu que abordaria a participação do Brasil. Afinal, são incontáveis os filmes e livros sobre o protagonismo dos Estados Unidos, por exemplo.

Por isso, Dalmaso decidiu retratar a atuação da FEB, que contou com mais de 25.000 pracinhas brasileiros na luta contra o nazifascismo. O artista escolheu narrar uma história real, e não apenas inspirada no contexto histórico.

"Tinha essa ideia fazer sobre a FEB, mas não tinha uma história definida. Tentei criar uma história própria, mas não ficou tão bom. Comecei a pesquisar e acabei me deparando com a história do Eliseu e vi que daria uma história em quadrinhos espetacular", conta o autor.

A trajetória de Eliseu, que chegou a comer sola de sapato para enfrentar a fome no campo de concentração, foi registrada em entrevista ao jornalista Altino Bondesan. A entrevista também serviu de base para a monografia do historiador Douglas Almeida, que assina o posfácio da graphic novel.

Uma das cenas mais dramáticas desenhadas por Dalmaso é quando Eliseu, depois que seu grupo foi cercado, em uma noite chuvosa na localidade de San Quirico, vê um amigo morrer metralhado.

Sob ataque, Dalmaso e um colega juram sobre a Bíblia que irão voltar após buscar reforços. O capitão recomenda que eles não voltem ao casarão atacado pelos alemães. Mas Eliseu volta, como prometido, e acaba detido.

Apesar da ameaça de fuzilamento, termina preso e depois transportado para Alemanha, que evacuava os presos contrariando a Convenção de Genebra. A sequência é real, mas Dalmaso precisou recriar os diálogos. O autor optou por escrever diálogos em alemão e italiano sem tradução para provocar a sensação de estranhamento no leitor enfrentada pelos brasileiros na guerra.

Esta é a primeira HQ de Dalmaso, que fez o roteiro em 2015 durante o horário de almoço no trabalho de gerente de uma loja pertencente a uma rede nacional. Quando decidiu levar o projeto adiantes, largou o emprego e se dedicou exclusivamente ao projeto.

A maioria dos desenhos são em aquarela e o artista foi fiel aos uniformes, armas e acessórias da FEB, a partir de fotografias feitas por ele de artigos de museus.

"É uma arte linda. Quando ele nos procurou e mostrou as páginas de arte, já era de cair o queixo. Está muito acima da média nacional do que é trabalhado em quadrinhos", diz Artur Vecchi, editor responsável pelo livro.

As páginas foram desenhadas originalmente no tamanho de folha A3 e cada uma levou cerca de três dias, cada uma com doze horas de trabalho, para ficar pronta, explica Dalmaso.

Apesar dos esforços dos pracinhas brasileiros na Segunda Guerra Mundial, a história da FEB segue pouco lembrada pelo público não especializado. Para Dalmaso, dois fatores podem explicar a pouca atenção.

O primeiro é a campanha difamatória que a FEB sofreu no retorno ao Brasil. Criada em 1943, ela foi extinta pelo presidente Getúlio Vargas em 1945. "Eles foram lutar contra o nazismo, foram lutar por democracia. Mas no Brasil havia uma ditadura, a ditadura do Estado Novo. Eles voltaram vitoriosos, mas o próprio meio militar e civil difamou a FEB, falaram que foram passear, que demoraram para tomar Monte Castelo, ignoraram todas dificuldades", opina.

O segundo motivo, para o autor, é a própria ditadura militar (1964-1985). "Mesmo que a FEB não tivesse nada a ver com o golpe, a ditadura militar afastou a classe artística e o cinema de abordar esse tema. Se as pessoas quiserem abordar, tem muita história boa", defende.

"É uma história de luta contra o nazifascismo, que talvez seja a pior cosia que pode existir na face da terra", diz ele.

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