Pensando Sobre Games: obrigação de gostar

05.08.2021 | 08h00
Joana Caldas
Por Joana Caldas
The Last of Us Part II

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Jogos exclusivos e com nota boa no Metacritic são imunes a críticas, de acordo com alguns gamers

Nestas férias, tive a oportunidade de jogar The Last of Us Part II, título exclusivo do Playstation (pelo menos por enquanto) e com nota 93 no Metacritic, baseada na crítica especializada. E você sabe o que um game exclusivo e aclamado nas análises significa, né? Você é obrigado a gostar.

Se você não concorda com essa última frase, eu também não. Mas tem uma parcela significativa de jogadores que acha que se os críticos dizem que é bom, então é. Ou melhor, que usam o fato de o jogo ter sido aclamado para simplesmente desconsiderar qualquer opinião contrária.

The Last of Us Part IIThe Last of Us Part II/Reprodução

Isso não é novidade. Vemos esse comportamento também em outras mídias, seja cinema, livros, séries. Porém, acredito que nos videogames há ainda outro fator que pese: a chatíssima guerra dos consoles. Então imagine se você vai dizer que não curtiu um aspecto do game X, exclusivo do aparelho Y, e que vendeu ZZ milhões de cópias na primeira semana!

É óbvio que você está criticando só porque é fanboy de outra empresa. Óbvio que você não pode achar que o jogo, no geral, é bom, mas tem alguns fatores que você não curtiu, ou que você ache que poderiam ser melhores.

Isso não existe para alguns jogadores porque, para eles, há apenas o game incrível, com os melhores gráficos, melhor som, o mais divertido, o que tem o melhor design de fases, melhor história, melhor jogabilidade, melhor tudo. Existe isso ou você, que está criticando. E se você está questionando esse jogo é porque você não entende nada, é só um fanboy, e vamos desconsiderar a sua opinião. Não há meio termo.

E isso é uma grande bobagem. Vou dar um exemplo e, para não parecer que estou implicando com um determinado título, vou escolher o meu jogo favorito, o The Legend of Zelda: Breath of the Wild. Um game exclusivo da Nintendo, com nota 97 no Metacritic.

Lendo críticas por aí, você vai chegar a um “melhor jogo que já joguei”, a outro “este título é um passo à frente no gênero”, a “no próximo game que você jogar, vai sentir falta das mecânicas de Breath of the Wild”.

The Legend of Zelda Breath of the WildThe Legend of Zelda Breath of the Wild/Reprodução

Concordo com tudo isso aí. Porém, também há críticas. A principal que li é de jogadores que não curtiram o fato de que as armas quebram. E, para alguns, essa mecânica é insuportável e eles desistiram do jogo. Estão errados? Claro que não.

Não está errado quem não gostou porque o mapa é muito grande, ou porque sempre se distrai do objetivo principal com missões secundárias e não consegue chegar ao final, ou ainda porque não tem tempo para se dedicar ao game. Todas essas críticas a Breath of The Wild são válidas.

Sabe do que mais? Concordo com várias delas. Fiquei jogando este título por um ano e meio. É grande mesmo. Mesmo assim, acho o melhor game que já joguei. Contudo, não é perfeito, nenhuma obra de arte é.

Acho que esse é um ponto fraquíssimo da comunidade gamer. Para diminuir o preconceito que existe contra os videogames, de que eles são uma perda de tempo e não possuem nenhum valor artístico, a gente precisa aceitar críticas razoáveis. Afinal, nenhuma obra agrada a todos e outros tipos de expressão artística, que são mais aceitos como arte do que os jogos, recebem questionamentos.

É possível sim gostar de um game e admitir que ele não é perfeito. É normal aceitar que uma outra pessoa possa ter tido problemas com uma mecânica que não te incomodou.

O que é chato é descartar a opinião do outro, caso seja razoável, para construir na sua cabeça um mundo imaginário onde todos os jogadores concordam que o seu game favorito é o melhor de todos. Nem The Legend of Zelda: Ocarina of Time, o título com maior nota no Metacritic, está livre de críticas.

Portanto, fuja dos jogadores chatos que acham que, porque um jogo é exclusivo e aclamado, ele é imune a críticas. Espero que você tenha a sorte de ter amigos com quem você possa trocar ideias sem precisar que todos tenham a mesma opinião.

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